Voltando

Expectativa é uma merda. Logo depois que publiquei meu primeiro texto, a primeira coisa que pensei foi “que porra eu vou escrever no segundo”. Eu estou sempre pensando o que vou fazer em sequência, isso é ao mesmo tempo uma benção e uma maldição. Estar sempre à frente um ou dois movimentos foi o que me trouxe até aqui, o que é bom, mas ao mesmo tempo foi o que me trouxe até aqui do jeito que eu sou, o que não tenho tanta certeza assim se é bom ou não.

Voltando, se meu primeiro texto fosse horrível ninguém ia querer ler o segundo, pensei. Logo, teria paz para escrever sobre qualquer coisa, sem nenhum tipo de pressão. Poderia escrever sobre a vez em que subi em Santa Teresa de madrugada pelo único local que me falaram para não subir – o que seria muito particular, poucas pessoas passaram por lá e estão vivas – ou então falar sobre terminar um relacionamento ainda amando uma pessoa – o que seria certamente universal.

As pessoas gostam de coisas universais. Nada, absolutamente nada é mais prazeroso psicologicamente falando do que se identificar com algo. Imagino que não seja apenas pelo sentimento de match, mas porque ao nos enxergarmos em algo ou alguém temos a prova real de que existimos. Que nossa vida não é um devaneio na cabeça de algum escritor ou um quadro mal escrito de alguma produção de comédia de 20 minutos da Netflix.

A identificação mostra também que não estamos sozinhos. Que sentimos a mesma coisa. Sentimentos são tão subjetivos que a mínima certeza de que alguém sente a nossa dor já faz com que ela se reduza pela metade. Musicas têm esse poder. Cantar um refrão sofrido ao lado de desconhecidos, tem algo que une mais as pessoas? Talvez só o final de Game of Thrones.

Voltando, e desculpa pelas digressões, eu já disse que estou sempre pensando, né. Eu estou sempre pensando. Voltando mesmo agora, não tive a sorte do meu primeiro texto ser horrível. Pelo contrário, recebi até elogios de pessoas que eu não conheço – inclusive, Mariana B, muito obrigado pela mensagem de incentivo. O que nos leva a esse segundo texto, a expectativas e a universalidades.

É isso. Vou falar sobre universalidades. Acho que falando sobre isso acabo diminuindo as expectativas. Era pra ser fácil falar sobre coisas universais, mas o quão difícil é achar algo universal nessa época tão fragmentada? Antes sempre existia alguém para nos dizer o que ler, o que ouvir, e no que acreditar. Nos anos 90, por exemplo, poucos canais formavam nossas opiniões: MTV, Revista Bizz, Capricho, Turma da Mônica, Veja, Globo, Superinteressante, o irmão mais velho do seu melhor amigo, o motorista da van que te levava pro colégio. Agora são milhares de podcasts, newsletters e digital influencers disputando os recursos mais escassos do mundo em 2019, tempo e atenção.

Se tem uma prova que vivemos em uma distopia são digital influencers. Eu não vou gastar mais uma palavra com isso porque um dia vou escrever só sobre distopia e vão ter parágrafos inteiros só sobre influencers.

Voltando, li esses dias que 71% das músicas gravadas nos últimos 50 anos falam de amor. A coisa mais universal e ao mesmo tempo mais particular que existe, ou que as pessoas pensam que existe, é o amor. Eu digo “pensam” porque as pessoas acham que é amor mas nem sempre é amor, né, é cilada, ou é tesão, ou é deslumbre, ou é interesse, ou é carência – e você confunde. E você chama de amor. Esse é o momento do texto onde eu plantaria uma indireta, mas vou pular essa parte, estou maduro.

Fora essa confusão de sentimentos existe também o fato de que ninguém pode entrar dentro da gente para saber exatamente como nos sentimos. E nós não podemos entrar dentro das pessoas. Se você pudesse, se existisse uma forma de classificar e mensurar objetivamente os sentimentos do seu parceiro ou parceira, eu tenho escrito sempre no masculino e no feminino, acho uma forma singela de buscar igualdade, mesmo que seja um pequeno gesto que ninguém vê, mas tudo bem, Deus tá vendo, voltando, se você pudesse medir o amor de outra pessoa, você mediria? E se fosse 10 vezes menor que o seu, você continuaria na relação? E se fosse tesão pra um e carência para o outro? E se fosse só histeria de um lado e neurose do outro? Há quem diga que as pessoas não encontram o amor, mas sim a neurose que as completa.

Uma dica boa para saber se o que você sente é amor é responder mentalmente a duas perguntas. Mentalmente, hein, não vá passar vergonha perguntando essas minhas maluquices na frente dos outros. Primeira pergunta, você levaria uma bala por essa pessoa? Segunda pergunta, você doaria um rim pra essa pessoa? Se as duas respostas forem afirmativas, eu acredito que o que você sente, sinto muito, é amor. Aos que se perguntam se existe uma dica para saber se a outra pessoa te ama, não tem. Pelo menos não enquanto vocês estão juntos. Depois talvez dê para saber com base em certas atitudes pós-término de relacionamento, mas, como eu disse lá em cima, não estou dando indiretas porque estou maduro.

Voltando ao que interessa, será que já tá bom pra um segundo texto? Será que as pessoas que falaram “aguardo ansiosamente pelo próximo” já saciaram suas expectativas e mataram sua ansiedade? Acredito que não, as pessoas sempre querem mais, seja do que for, taí algo realmente universal, mas espero que sim porque como falei lá em cima eu estou sempre um passo à frente, né. Logo, essa crônica acabou. Preciso começar a pensar no meu próximo texto.

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Minha psicóloga acredita que eu deveria conhecer novas pessoas. Eu não acho que eu precise conhecer mais ninguém nessa vida, já conheço gente demais, mais até do que consigo lembrar do nome. Conheço desde tipos comuns como publicitários, advogadas, faxineiros, até pessoas extraordinárias como artistas plásticos, nômades digitais e curadores de coletâneas de meditação.

Ainda assim, por ter saído recentemente de um longo relacionamento amoroso, por estar com depressão, não nessa ordem, a depressão veio antes, que fique claro que terminar um relacionamento não causa depressão, pode até causar, mas não foi o caso. Por todo esse quadro eu deveria conhecer novas pessoas. Faz parte do tratamento.

A melhor forma de se conhecer pessoas em 2019 é por via digital, assim me falaram. Eu tendo a acreditar que, pouco a pouco, as pessoas ficaram tão avessas ao contato direto que até uma ligação telefônica se tornou exótica. Não estou dizendo que as pessoas não se conheçam ao vivo, mas o flerte tem acompanhado um fenômeno mundial que é o da “uberização”, termo normalmente aplicado ao universo do trabalho, mas que pode e deve ser aplicado também às relações pessoais do século XXI. Assim como na prestação de serviços, a uberização das relações pessoais também acontece por aplicativos sob demanda e vínculos precários e de pouca segurança.

Minha primeira opção, então, era me render a esse fenômeno global e colocar meus dados em algum aplicativo de relacionamentos. Esses aplicativos funcionam como o iFood, você coloca lá a foto do produto, descreve o que tem nele, o que não tem, e fica aguardando alguém fazer um pedido do prato – no caso, o prato é você mesmo. Como na hora do almoço, tem gente que só pede se o frete for grátis. Outros arriscam pagar mais, afinal de contas, nem sempre o que há de melhor está no plano piloto – consumidores de substâncias ilícitas que o digam.

Diferente do iFood, nesses aplicativos o prato precisa sinalizar também que gostaria de ser comido pelo cliente. Não consigo imaginar isso nem nos surreais filmes de Charlie Kaufman, mas é assim que funciona. Como todo bom dono de negócio, você pode pagar para que mais pessoas vejam o seu produto, o que não necessariamente significa que mais pessoas comerão o prato – no caso, você.

Assim como as paleterias mexicanas, as temakerias e os bares de cervejas especiais, os aplicativos de relacionamentos não estão mais no seu auge. Se fossem uma festa, seriam uma festa às 4 horas da manhã – quem se deu bem, se deu bem; quem não se deu bem, não vai. Depois das 4 horas da manhã nada de bom virá pra você, se você não se lembrar de mais nada do que estou dizendo lembre-se disso, vai te poupar muita frustração ao longo da vida.

Uma opção melhor do que os aplicativos de match – assim me falaram – é o Instagram. Para os idosos que não fazem ideia do que seja isso, é também um aplicativo, só que nesse as pessoas postam fotos para mostrarem que estão felizes e vivendo uma vida melhor do que a dos outros. Elas abrem suas vidas, seus registros fotográficos que nos anos 80 só suas tias veriam no Natal, em troca de uma moeda chamada like. Como o real, essa moeda não vale nada, mas ainda assim algumas pessoas se matam para consegui-la.

Se eu fosse jovem, adolescente, e dependesse de produzir conteúdo em uma rede social para transar, eu provavelmente seria virgem até hoje. Os produtos que rendem mais moedas no Instagram são fotos na praia, na cachoeira ou na beira da piscina – com pouca ou muita roupa. O brasiliense tem esse negócio com a água, por aqui essas fotos rendem mais ainda. Fotos de casais felizes também rendem muitos likes, mas essa opção não está disponível para a pessoa solteira.

Para se dar bem no Instagram, além de produzir conteúdo para enriquecer alguma pessoa já rica da Califórnia, você precisa também saber interpretar sinais. Um pedido para seguir não é só um pedido para seguir, ele significa alguma coisa. Uma curtida, um comentário, uma resposta ao Stories, tudo tem um motivo de ser. Ou não. Quem sabe. Sabe? Quem sabe, sabe. A etiqueta do flerte virtual vem com a prática – assim me falaram.

Uma coisa que não me falaram, mas que acredito seja boa para conhecer pessoas, é fazer compras de supermercado. Com o envelhecimento do meu círculo social é mais fácil encontrar amigos no supermercado do que nas festas noturnas. Tem sempre alguém conversando com alguém que pode te apresentar alguém legal. E o carrinho de compras de uma pessoa revela muito mais do que qualquer about do mundo digital.

Falando em festa, hoje é sexta-feira. Eu tenho ficado muito em casa, mas nas sextas eu me forço a ir em alguma festa para beber, dançar, me arrepender de ter bebido tanto, me arrepender de não ter dormido cedo, pagar um uber mais caro porque não moro no plano piloto e dormir. Eu poderia simplesmente ficar na calma frieza solitária do meu apartamento monocromático, mas é que estou em tratamento, entende. Minha psicóloga acredita que eu deveria conhecer novas pessoas.